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Blog NOVAFRICA: Integrar Migrantes — Por que Apoiar Imigrantes no Exterior Pode Impulsionar o Desenvolvimento nos Países de Origem

A migração internacional desempenha um papel fundamental na formação do desenvolvimento económico — não apenas nos países de destino, mas também nos países de origem. No entanto, a forma como os imigrantes se integram nos países de acolhimento é muitas vezes negligenciada nas discussões sobre o impacto mais amplo da migração. Será que uma melhor integração no país de destino pode traduzir-se em benefícios de desenvolvimento nos países de origem? Essa é a questão central do estudo

Integrating Migrants: Experimental Evidence on Cross-Border Spillovers

de Catia Batista, Lara Bohnet, Jules Gazeaud e Julia Seither (2025). O estudo centra-se nos imigrantes cabo-verdianos em Portugal — o segundo maior grupo de imigrantes africanos no país — que enfrentam elevadas taxas de desemprego e barreiras persistentes no acesso a empregos estáveis, documentação e informação sobre os seus direitos.

Metodologia e Abordagem

Os autores defendem que a capacidade dos imigrantes de aceder a informações fiáveis sobre emprego, estatuto legal e serviços públicos é um fator determinante para o modo como a migração afeta os resultados tanto nos países de destino como nos de origem. Para testar esta hipótese, foi realizado um ensaio controlado aleatorizado (RCT) com migrantes cabo-verdianos recém-chegados a Lisboa.

Os participantes foram aleatoriamente atribuídos a um de dois grupos:

• O grupo de tratamento recebeu acesso ao Morabeza, uma aplicação móvel gratuita (e também um guia impresso) que fornece informações práticas sobre oportunidades de emprego, direitos legais, procedimentos de residência, acesso a cuidados de saúde e serviços de apoio locais.
• O grupo de controlo recebeu uma versão placebo, contendo apenas informações turísticas sobre Lisboa.

A ideia era simples, mas poderosa: ao reduzir as barreiras de informação, os migrantes poderiam encontrar melhores empregos, regularizar a sua situação e participar mais plenamente na sociedade portuguesa. Os investigadores acompanharam tanto os migrantes em Portugal como um familiar próximo em Cabo Verde durante 18 meses, para perceber se as melhorias na integração “transbordavam” para além-fronteiras.

Resultados

Os resultados foram surpreendentes. Os migrantes com acesso à aplicação Morabeza registaram melhorias significativas na sua integração no mercado de trabalho e na qualidade dos seus empregos — embora sem aumentos salariais significativos. Tornaram-se também mais proativos: procuraram mais empregos, deram passos para a regularização e tiveram maior probabilidade de obter autorização de residência.

Mas os efeitos não se limitaram a Portugal. As famílias dos migrantes em Cabo Verde revelaram níveis mais elevados de participação política — nomeadamente um aumento expressivo na taxa de participação eleitoral — e atitudes mais igualitárias em relação ao género dentro dos agregados familiares. Estas “remessas sociais”, isto é, a transferência de ideias e comportamentos em vez de dinheiro, foram mais fortes entre os participantes mais jovens e do sexo masculino, cujas crenças sobre normas de género evoluíram mais. Curiosamente, estas mudanças positivas não se deveram a aumentos de rendimento nem à frequência de comunicação, mas sim ao conteúdo das interações: migrantes mais integrados transmitiram novos valores e normas sociais.

Porque é que isto importa

Esta investigação demonstra que a integração desempenha um papel crucial nas políticas de migração e desenvolvimento. Melhores resultados de integração não beneficiam apenas os próprios migrantes, mas também podem fortalecer as famílias e comunidades nos países de origem. O estudo oferece evidência experimental de que ferramentas de baixo custo e facilmente escaláveis podem promover o sucesso no mercado de trabalho, a inclusão legal e até o envolvimento democrático além-fronteiras. Num mundo em que a migração continua a moldar sociedades em ambos os lados, políticas que apoiem a integração dos imigrantes podem tornar-se um instrumento eficaz de desenvolvimento partilhado.

Descarregue o Working Paper aqui.

Authored by: Anaïs Biladi