Blog NOVAFRICA: O lado humano da migração — Por que a personalidade é importante na integração
A migração é mais do que apenas um processo legal; é uma jornada humana moldada pela personalidade. Embora as políticas estabeleçam o quadro, características como aversão ao risco, impaciência e determinação muitas vezes influenciam o grau de integração dos migrantes nas novas sociedades. O documento de trabalho da NOVAFRICA intitulado “O impacto das características individuais não cognitivas na integração dos migrantes” , da autoria de Cátia Batista e Rita Mira Vaz, examina estas características e revela ligações inesperadas entre o comportamento e o sucesso nos mercados de trabalho, nas redes sociais e no envolvimento cívico. Compreender estes fatores pode ajudar os decisores políticos e as comunidades a desenvolver estratégias mais inovadoras e inclusivas. Nesta publicação, são discutidas a abordagem do estudo, as principais conclusões e a importância destas ideias para o futuro da migração e da integração.
Metodologia e abordagem
As autoras afirmam que a migração vai além da mera passagem de fronteiras; envolve estabelecer uma vida em novas comunidades. Este estudo investiga como características não cognitivas — tais como aversão ao risco, impaciência e determinação — influenciam a integração dos migrantes em Portugal. As investigadoras recolheram dados de um inquérito na Área Metropolitana de Lisboa, com foco em migrantes de diversas origens, incluindo um grupo avesso ao risco, impaciente e altamente dedicado.
A abordagem foi multidimensional:
Indicadores de integração: inclui a forma como as pessoas participam no mercado de trabalho, as suas redes sociais e o seu envolvimento em atividades cívicas.
Medição de características: utilização de experiências comportamentais e escalas autoavaliadas para avaliar características de personalidade.
Quadro analítico: modelos econométricos que ligam as características aos resultados da integração, tendo em conta fatores demográficos e socioeconómicos.
Este desenho facilitou à equipa concentrar-se no papel desempenhado pelas características de personalidade, para além de fatores estruturais como competências linguísticas ou estatuto legal.
Resultados do estudo
Este artigo desafia a visão de que a integração dos migrantes é exclusivamente impulsionada por políticas e educação formal, destacando traços não cognitivos como aversão ao risco, impaciência e determinação. Com foco nos migrantes cabo-verdianos em Portugal, ele constata que indivíduos avessos ao risco investem mais em laços sociais, a impaciência está ligada à cidadania ativa e a determinação contribui para o sucesso no mercado de trabalho. O estudo mostra que a integração é personalizada, moldada tanto por traços individuais quanto por políticas.
Aversão ao risco: os migrantes avessos ao risco costumam investir em laços sociais para promover a confiança e a estabilidade dentro de suas comunidades.
Impaciência: curiosamente, a impaciência está ligada à cidadania ativa — pessoas que querem resultados rápidos tendem a participar de atividades cívicas para acelerar sua integração.
Determinação: a persistência tem um impacto sutil, mas significativo, especialmente na integração no mercado de trabalho, onde o esforço sustentado a longo prazo é crucial.
Estes resultados enfatizam que a integração varia e é influenciada tanto por tendências comportamentais pessoais como por estruturas políticas.
Por que isto é tão crucial
A Europa enfrenta desafios demográficos, e a imigração é uma solução crucial. Portugal é notável pelas suas políticas inclusivas, mas barreiras informais como a língua, a adaptação cultural e a aceitação social ainda persistem. Esta investigação indica três conclusões principais:
Inovação política: os programas podem ser personalizados com base em traços de personalidade, fornecendo apoio específico para pessoas que assumem riscos em comparação com indivíduos cautelosos.
Estratégias das ONG: as iniciativas comunitárias podem realmente aproveitar qualidades como a determinação para ajudar a construir resiliência entre os migrantes, criando um ambiente de apoio e empoderamento.
Integração holística: além do emprego e da acomodação, fatores psicológicos e comportamentais são significativos para o sucesso a longo prazo.
Em resumo, a integração é muito mais do que sistemas — trata-se realmente de pessoas. Reconhecer o lado humano das questões pode influenciar significativamente a forma como as sociedades apoiam e aceitam os migrantes, o que é essencial para o desenvolvimento social e a integração dos migrantes.
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Autor: Kaisul Khan MSc. em Desenvolvimento & Políticas Públicas e Grupo de Estudantes NOVAFRICA

